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Tomás é o profissional mais pontual de Culiacán: seus pacientes nunca se atrasam, nunca remarcam e nunca perguntam se vai doer. Há vinte e dois anos ele abre corpos para descobrir do que morreram, numa cidade que quase sempre já sabe a resposta - e que prefere, com gentileza armada, que ele escreva outra. No papel é médico legista. Na prática, é tradutor: pega o que Sinaloa faz com as pessoas e verte para o idioma morno e entediado da burocracia, aquele em que "múltiplas lesões por projétil de arma de fogo" é verdade e, ao mesmo tempo, não diz nada sobre o rapaz de dezenove anos que estava embaixo da frase.
Então chega Lucía. Luz - os pais acertaram, o que é raro numa cidade onde a maioria dos nomes é uma profecia que não se cumpre. Ela é buscadora: uma das mulheres que saem serra adentro, de enxada e fósforos na bolsa, cavando a terra à procura dos seus. Traz na pasta as fotos de Rubén, o irmão desaparecido, rindo em todas - porque ninguém guarda foto de parente sério. E traz um pedido que fura o protocolo, o cansaço e a autodefesa de um homem que aprendeu a não sentir para continuar trabalhando: ajuda a encontrar.
Para os Meus Braços é um romance sobre os desaparecidos e sobre quem se recusa a deixar que a morte tenha a última palavra sobre como se gasta uma tarde - as buscadoras recusam cavando, a quinceañera recusa dançando. Com a compaixão seca e a lucidez implacável que marcam a obra de J.S. Kross, é a história de um homem que traduzia mortes em formulários e reaprende, tarde, a devolvê-las a braços humanos - porque cada um que se acha é, um pouquinho, o Rubén de alguém.
Da coleção Crônicas Líricas, em que cada livro nasce de uma canção.
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